Clínica de Alergia e Pneumologia

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AS DOENÇAS DO INVERNO

A chegada do frio e a baixa umidade do ar, são os principais desencadeador de doenças, como gripes e resfriados, asmas, bronquites,  pneumonias, rinites alérgicas,  sinusites e asma. Por possuírem sintomas muito parecidos, essas enfermidades podem ser facilmente confundidas. Crianças e idosos são os mais afetados, mas com alguns cuidados é possível minimizar os efeitos que essas doenças geram na saúde neste período do ano.
Vamos então ao esclarecimento das doenças de inverno:
— Gripes e resfriados: embora tenham sintomas aparentemente semelhantes, a gripe e o resfriado são doenças diferentes. O resfriado dura entre quatro e cinco dias, mas pode se prolongar por até duas semanas. Provoca coriza, obstrução nasal, tosse, dor de cabeça, dor de garanta, febre baixa e espirros. É transmitido pelo contato direto entre pessoas. O indivíduo atacado continua firme e consegue realizar suas atividades habituais.Analgésicos e antitérmicos podem aliviar os sintomas.
A gripe, causada pelo vírus influenza, é mais grave e costuma ter duração mais longa. Além dos sintomas do resfriado, provoca febre alta de instalação abrupta, dores pelo corpo e fadiga. Se não diagnosticada e tratada corretamente, a gripe pode desencadear complicações como pneumonias e comprometimento dos brônquios.
— Asma: comum em crianças, mas também presente em adultos, é uma inflamação do pulmão e das vias aéreas, caracterizada por chiados no peito, tosse e sensação de falta de ar.
— Bronquite: inflamação dos brônquios que impede a chegada do ar aos pulmões e muito semelhante a asma. Seus principais sintomas são tosse seca com chiado seguida por tosse com catarro.
— Dor de ouvido ou otite: muito comum em crianças e, normalmente, causada por vírus e bactérias que infectaram a garganta e migraram até o ouvido.
— Pneumonia: é uma infecção aguda dos pulmões causada por bactérias, vírus ou fungos. Ocorre quando há falha nas defesas do organismo e pode surgir após uma gripe ou crise de bronquites mais severas.
— Rinite: é a mais comum das doenças alérgicas, causada pela inflamação ou irritação da mucosa do nariz. Os principais sintomas são espirros, coriza, coceira e entupimento do nariz. Muito semelhante a gripe e resfriados. A diferença principal é que as alergias permitem ao indivíduo levar vida normal enquanto as infecções por vírus geralmente debilitam e tiram a vontade de trabalho, estudo e concentração.
— Sinusite: é a inflamação das cavidades do crânio em torno do nariz, causada por alergias ou infecções virais e bacterianas que provocam dor de cabeça, inchaço nas pálpebras, nariz entupido, secreção nasal e dor nos olhos.
— Alergias: são reações causadas por reação a alguns elementos como ácaros ambientais, poeira ambiental, pelos de animais, mofo,  entre outros. Os sintomas para a identificação de alergias vão desde um espirro , coriza aquosa , entupimento coceiras e tosses.
 
Como prevenir?
— Fazer a vacinação anual contra gripe, que diminui a gravidade da doença e as chances de complicações por óbito. Todas as pessoas  e de todas as idades devem usar a vacina, embora o Governo só forneça gratuitamente a uma faixa de maior risco de complicações.
— Se estiver doente evite em dar as mãos para outras pessoas para não contamina-las
— Limpar as mãos com água e sabão depois de tossir ou espirrar, após usar o banheiro, antes de comer e antes de tocar os olhos, boca e nariz.
— Evitar tocar os olhos, nariz ou boca após contato com superfícies que podem estar contaminadas porque o doente pegou
—  Proteger com lenços a boca e o nariz ao tossir ou espirrar ou fazê-lo no braço e não nas mãos que vai pegar em outros locais
— No inicio da gripe ou resfriado é possível matar os vírus jogando soro fisiológico na mucosa nasal, por spray, pois os vírus não suportam o pH básico do soro
— Evitar aglomerações e ambientes fechados ( deve-se manter os ambientes ventilados)
— Já em relação as alergias e asma elas são durante todo o ano e recomenda-se:
 
• Manter os ambientes secos e abertos, permitindo a circulação do ar e a entrada  dos raios de sol, capazes de destruir os ácaros e fungos
• Incentivar as crianças a brincar ao ar livre, agasalhando-as no tempo de frio
• Encapar colchões, travesseiros e almofadas com plástico ou tecidos impermeáveis
• Trocar a roupa de cama pelo menos uma vez por semana, lavando-a em água quente
• Usar cobertores antialérgicos, lavando-os regularmente e deixando ao sol para secar
• Evitar plantas, animais de estimação, bichinhos de pelúcia, tapetes ou carpetes, livros e brinquedos acumulados no quarto das crianças
• Retirar as cortinas ou usar aquelas de tecido sintético, mais finas, curtas e presas por argolas para facilitar a remoção e a lavagem 
• Substituir a vassoura por pano úmido na limpeza diária, afastando as pessoas alérgicas
• Aplicar produtos antimofo ou água sanitária diluída em água em carpetes, frestas, cantos dos móveis, armários
• Não usar inseticidas em spray nem espiral
• Jamais fumar dentro de casa, perto de crianças ou mesmo de adultos alérgicos
ATAUALPA P. DOS REIS-MÉDICO ALERGOLOGISTA e IMUNOLOGISTA TITULADO PELA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALERGIA E IMUNOPATOLOGIA E PROFESSOR DE POS GRADUAÇÃO CONVIDADO DA UFMG E SANTA CASA DE BELO HORIZONTE
 
 
 
Efeitos do tratamento com corticoide nasal e controle ambiental em crianças
 
Efeitos do tratamento com corticosteróide nasal  e controle do ambiente em crianças portadoras de Rinite Alérgica e Asma Brônquica
Effect of nasal topical corticosteroid and allergen avoidance in children with allergic rhinitis and asthma
Controle do ambiente e corticosteróide nasal em asma
 
         Ataualpa P. Reis1, Luciana Reis2, José Augusto N. Machado3
1-Professor de Pós Graduação em Imunologia da Santa Casa de Belo Horizonte e da Universidade Gama Filho, MG. 
2-Médica estagiária 
3-Professor de Pós Graduação em Imunologia da Santa Casa de Belo Horizonte
Ataualpa P. Reis-Avenida do Contorno 4852-CEP 30-110100 – Belo Horizonte, MG
Tel-31-3221-9900 Fax 31-3225-2433  Email: apreis@uai.com.br
 
Resumo
         Objetivos: A exposição domiciliar a altos níveis de alérgenos do ambiente tem sido relacionada à rinite alérgica e asma e uma intervenção global de controle do ambiente , bem como o uso de corticosteróide tópico nasal, pode ajudar a melhorar as duas patologias. O estudo teve como objetivo primário determinar os efeitos clínicos deste tratamento e como objetivo secundário verificar a redução dos alérgenos ambientais e a redução da asma destes pacientes.
            Métodos: 62 crianças com rinite alérgica persistente e asma leve persistente (VEF1> 80% do previsto) foram alocadas randomicamente para um grupo de tratamento com medidas globais para controle do ambiente e um grupo controle sem estas medidas. As medidas agressivas de controle global do ambiente consistiram no uso de capas impermeáveis aos ácaros nos colchões e travesseiros, limpeza e aspiração das poeiras, lavagem regular dos tecidos das camas, evitar carpetes e móveis estofados. Além disto, ambos os grupos usaram triancinolona nasal continuamente pelo período de estudo. Observamos durante um período de seis meses , por ensaio duplo cego, se esta intervenção bi facetada teve algum efeito, primariamente, na redução dos sintomas clínicos e secundariamente no nível de alérgenos do ambiente e nas provas de função pulmonar (VEF1 e Peak Flow).
            Resultados: Desfecho favorável foi observado no grupo de tratamento em relação aos sintomas clínicos e nas medidas do pico de fluxo expiratório                                                                                                                                                                                                                   (Peak Flow) em associação com a redução dos níveis de alérgenos do ambiente. As medidas do VEF1 não melhoraram e houve também desfecho favorável, porém menos acentuado, nos mesmos parâmetros no grupo controle.
            Conclusão: Os resultados indicam que medidas globais de controle do ambiente e o uso simultâneo de corticosteróide intranasal em pacientes com rinite alérgica persistente e asma leve persistente têm impacto positivo sobre a asma.
            Descritores: controle ambiental, asma, rinite, corticóide nasal
 
 
 Abstract
            Objectives: Home exposure to high level of house allergens has been shown to be related to rhinitis and asthma and global allergen control as well as intranasal use of corticosteroids can reduce both conditions.The primary purpose of the study was to determine the clinical effect of this treatment e secondarily to verify the reduction of environmental allergens and whether this treatment could reduce asthma.
            Methods: Children (62) with clinical persistent rhinitis and mild persistent asthma (FEV1>80% of predicted) were randomly allocated to a global house dust avoidance treatment group and a placebo group with no intervention. The global aggressive intervention for the environment control consisted of the use of mite impermeable covers for mattress and bedding, dusting and vacuuming, regular laundered linen, avoidance of carpets and up-holstered furniture. All patients in both groups used a triancinolone nasal spray continuously throughout the study period. We observed during a period of six months, in a double blind action, whether the intervention and nasal spray had an effect on clinical symptoms and secondarily whether there was any effect on the levels of home antigens on the FEV1 and Peak Flow parameters.
            Results: Significant improvements were seen in the treatment group in symptoms scores and Peak Flow measurements in association with reduction of antigen determination in their homes. FEV1determinations did not improve and a minor improvement in the same parameters was seen in the placebo group.
            Conclusions: The results indicates that global dust mite avoidance measures and the simultaneously use of intranasal steroid in patients with persistent allergic rhinitis and mild persistent asthma had a positive impact in asthma.
            Keywords: environment control, asthma, rhinitis, nasal corticosteroid
 
Introdução:
A asma é a doença crônica mais comum na criança e a causa mais freqüente é a alergia aos ácaros ambientais e outros alérgenos do domicílio1-3. Vários estudos mostram a forte relação entre exposição aos alérgenos do ambiente, especialmente os ácaros, fungos e proteínas derivada de animais domésticos, e desenvolvimento de patologia alérgica respiratória3-6. Além disto, a forte relação entre níveis de exposição e sintomas de asma, bem como gravidade, têm sido demonstrada4, 7-8.
  Por outro lado, a inflamação das vias aéreas superiores e inferiores está fortemente associada, de acordo com o “ARIA Workshop Report (Allergic Rhinitis and Its Impact on Asthma)”9, sendo que de 80% a 90% dos pacientes com asma têm rinite alérgica concomitante e cerca de 40% a 50% dos indivíduos com rinite alérgica têm asma10.
  Evidenciando o conceito de que intervenções nas vias aéreas superiores podem influenciar favoravelmente nas vias aéreas inferiores, o uso prolongado de corticosteróide intranasal pode proteger contra exacerbações da asma11, bem como reduz hiperreatividade brônquica e melhora os sintomas asmáticos12-14.
  Neste estudo investigamos se a associação de intervenção agressiva global no ambiente domiciliar do alérgico, com a pretensão de reduzir sua exposição alergênica, e o uso concomitante e prolongado por seis meses de corticosteróide intranasal em crianças portadoras de rinite alérgica pode alterar a presença e as manifestações de asma.
 
Pacientes e Métodos  
 
Um total de sessenta e duas crianças (idade entre cinco e quinze anos) portadoras de rinite alérgica persistente e asma leve persistente foi recrutado para participar do estudo. Destas trinta e seis foram incluídas no estudo, duplo cego, aleatório e em paralelo e com seis meses de duração. O protocolo de estudo foi realizado de acordo com a Declaração de Helsinque, sendo que todos os pacientes foram esclarecidos e seus pais ou guardiões legais aceitaram e assinaram o termo de consentimento escrito ou verbal antes de sua admissão.
  Os critérios de inclusão foram: diagnóstico clínico de rinite alérgica persistente de acordo com a classificação do II Consenso Brasileiro sobre Rinites15, testes cutâneos positivos a dois ou mais alergenos do ambientes (principalmente ácaros), presença de asma leve persistente (com VEF1 acima de 80% do previsto) de acordo com os critérios de classificação do “Guidelines for the Diagnosis and Management of Asthma-2002” e da IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma-200616-17. Os critérios de exclusão foram: pacientes que usaram corticosteróide nasal, oral, inalado ou intramuscular durante as últimas quatro semanas anteriores ao estudo, pacientes clinicamente instáveis, com infecções do trato respiratório superior, sinusite infecciosa ou exacerbações de asma no período de recrutamento ou durante o estudo.
 Depois da visita inicial para a seleção, os pacientes participaram de uma semana de avaliação quando os sintomas,  freqüência, uso de medicação, medidas de capacidades respiratórias e pico de fluxo expiratório (PeakFlow) foram anotados.Ao fim deste período foram reavaliados e, se estáveis, foram alocados de maneira aleatória nos grupos experimentais para o período de tratamento. Após a inclusão as crianças foram incluídas em dois grupos: ativo com 20 crianças em que as medidas agressivas globais de controle do ambiente foram executadas e grupo controle (16 crianças) em que estas medidas não foram executadas.Todas as crianças usaram o corticosteróide triancinolona durante todo o período do estudo na dose de um jato (55mcg) em cada narina à noite.Também foi permitido usar broncodilatador inalado de resgate (salbutamol-SOS) em episódios de asma.Todas foram  instruídas para anotar os sintomas diariamente, bem como  realizaram a espirometria e as medidas do pico de fluxo expiratório. Estas avaliações foram repetidas a cada dois meses de intervalo até o final do estudo.
  Como medidas agressivas globais de controle do ambiente no grupo ativo foram incluídas simultaneamente: uso de capa impermeável nos colchões e travesseiros, limpeza da casa com uso de pano úmido ou aspiração com aspirador de pó com filtro HEPA ou receptáculo de água, retirar carpetes e pisos acarpetados, uso de poltronas e outros móveis apenas se impermeáveis,  lavagem semanal de lençóis e outros tecidos do quarto com água quente a 56 oC, exposição máxima do ambiente à luz solar, evitar brinquedos de pano ou com pelos, e aplicar água sanitária em locais de umidade.
A variável primária foi o escore de sintomas clínicos asmáticos e as secundárias foram as dosagens dos alérgenos do ambiente, o VEF1 e o pico de fluxo expiratório (Peak Flow). O estudo foi aprovado pelo Conselho de Ética da Santa Casa.
 
Dosagens dos alérgenos ambientais
  Os alérgenos dos ácaros do ambiente foram pesquisados através de amostras de poeira colhidas seguindo um protocolo de coleta usando-se um aspirador de pó Eletrolux modelo Vac.A-10 aplicado na superfície de quatro locais pré-determinadas: quarto, colchões, sala de TV, tapetes e carpetes.A aspiração foi realizada durante dois minutos em uma área de um metro quadrado em cada uma das áreas escolhidas.O material  foi coletado em frasco apropriado,  misturado a 10 ml de tampão e lacrado.Esta solução era sacudida e extraída por cinco minutos e estocada em geladeira a 4oC por um máximo de quatro dias até a análise dos alérgenos pelo ensaio específico semiquantitativo do “Rapid Test for Dust Mite” (Indoor Biotechnologies, Ltd, UK)19. Os níveis de alérgenos foram expressos como negativo, nível baixo, moderado e alto, sendo que baixo corresponde a aproximadamente 0.2 μg /g de poeira; médio a 0.2-1.0 μg /g poeira; alto > 1 μg /g de poeira. A equipe foi treinada para coleta do material que era rotulado em código e o pesquisador das amostras desconhecia o código até a abertura dos resultados.
 
Testes cutâneos
Os testes cutâneos foram realizados por punturas e com extratos glicerinados que foram adquiridos de IPI-ASAC do Brasil S/A(International Pharmaceutical Immunology-São Paulo) e puntores plásticos descartáveis da IPI-ASAC do Brasil. A bateria de alérgenos padronizados incluiu:  Dermatophagoides pteronyssinus, D. farinae, Blomia tropicalis, epitélio de cão (Canis familiares), epitélio de gato (Felis domesticus), fungos das espécies Penicillium nonatum, Alternaria alternata, Aspergillus fumigatus e baratas(Blatella germânica e Periplaneta americana). Todos os antígenos usados foram padronizados em unidades biológicas (UBE) e a técnica de puntura foi a padronizada por Dreborg e Frew18, sendo o critério de positividade a formação de pápula cujo maior diâmetro deve ser igual ou superior a 3 mm, com controle negativo igual a zero e controle positivo com histamina (10mg) também superior a 3 mm.
 
Medidas de espirometria e pico de fluxo expiratório (Peak Flow)
  A espirometria foi realizada em todos os pacientes no inicio e a cada dois meses subseqüentes usando o espirógrafo Spiromatic Vitatrace VT 130 SL versão 3.2 (Pro Médico LTDA) e interfaciado a um computador (Dell Dimension-Pentium de 1.80 GHZ) com o programa de software desenvolvido pela Engelógica- Engenharia de Sistemas LTDA.Uma profissional técnica foi treinada pela equipe pesquisadora e foi a única responsável  pelas medidas no período de estudo, sendo também a responsável pelas medidas de pico de fluxo expiratório (Peak Flow meter) em um aparelho Wright Peak Flow Meter e o melhor de três exames, calculados após correção de temperatura e pressão barométrica ambiente, foi gravado. Os pacientes foram também orientados em como anotar os sintomas asmáticos diariamente em relação à falta de ar, chiado, tosse, cansaço e perda de sono.
  A análise estatística foi realizada utilizando-se o teste t Student para as medidas independentes. A análise secundária foi realizada utilizando-se o deste t Student para as medidas pareadas e com desvio padrão da média, sempre analisados em relação à linha basal. Para os resultados em percentual e sem o desvio padrão foi aplicado o teste do Qui-Quadrado. Também foi analisado o coeficiente de correlação entre as medidas do pico de fluxo expiratório (Peak Flow) e as medidas dos níveis de alérgenos nos domicílios utilizando-se o coeficiente de correlação de Spearman. Nestas avaliações estatísticas usamos os programas de computador SPSS versão 10.0 e o Minitab.LNK versão 13.0 e o nível de significância estatística foi de 5%.
 
Resultados 
Sessenta e dois pacientes foram incluídos no inicio do estudo.Em ambos os grupos alguns pacientes foram retirados. Vinte e seis foram retirados por não completarem os critérios de inclusão e trinta e seis foram alocados para os 2 grupos de estudo.No grupo ativo quatro foram retiradas por não completarem as medidas agressivas globais de controle do ambiente e dois do grupo controle porque apareceram com infecções repetitivas, uso de outras medicações e suspenderam prolongadamente o uso do corticosteróide nasal. A figura 1 descreve o fluxo CONSORT de pacientes.
  As características dos pacientes foram semelhantes com todos da raça branca e com os parâmetros normalmente distribuídos, sendo que os 2 grupos não apresentaram diferenças significantes (tabela I)
  Não foi objeto deste estudo, mas os sintomas da rinite alérgica melhoraram acentuadamente ao longo dos seis meses em ambos os grupos após o uso do corticosteróide nasal (Reis AP et als: Rev.Bras.Alerg.Imunopatol 2006; 29, 201-209).
 
Escores asmáticos
Os escores asmáticos foram analisados de acordo com a tabela de pontos de Borg20 em relação à falta de ar, chiado, tosse, cansaço, e perda de sono, sendo que todos eram portadores de asma persistente leve de acordo com a classificação da IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma-200616, apresentando VEF1 acima de 80% do previsto. Na linha basal os sintomas tiveram escore médio 3.1 ±  0.3 pontos e nos meses subseqüentes apresentaram  2.6 ±  0.2;  2.1± 0.4; 1.7 ± 0.3 pontos para o grupo ativo e 2.9 ± 0.2; 2.4 ± 0.3; 2.3 ± 0.2 pontos para o grupo controle (Fig.2).A análise estatística dos meses 2 , 4, e 6 para o grupo ativo em relação à linha basal, apresentou desfecho positivo com significância de p
 
Pico de fluxo expiratório
A análise do Peak Flow (pico de fluxo expiratório) mostrou aumento médio em relação ao basal e interação ao longo do período de estudo sendo linha basal= 290 ± 49 com aumento para 305 ± 38 L/min no mês 2; no mês 4 houve aumento para 312 ± 32 L/min e houve aumento para 324 ± 38 L/min no mês 6 para o grupo ativo e para o grupo controle a linha basal foi de 282 ± 34 e aumento para 290 ± 28 L/min no mês 2; sendo que no mês 4 houve aumento para 294 ± 30 L/min e aumento para 310 ± 26 L/min no mês 6 . Houve portanto desfecho favorável no grupo ativo no mês 6 (p
  A espirometria com medição do VEF1 também foi realizada nestes mesmos intervalos em todos os pacientes do grupo ativo e do grupo controle, mas em relação ao valor basal não houve alteração significativa em ambos os grupos.A medida do VEF1 no grupo controle inicialmente foi de 87% do previsto em média e no grupo ativo 84% do previsto.No mês 6 as medidas médias eram de 84% e 85% do previsto, respectivamente.
 
Níveis dos alérgenos
O estudo dos alérgenos dos ácaros do ambiente pelo método específico semiquantitativo foi categorizado como baixo (0.2 microgramas/g de poeira coletada); médio (0.2 a 1.0 mcg/g de poeira e alto os acima de 1.0 mcg/g de poeira e mudança em relação aos valores basais iniciais para categoria mais baixa ocorreu em 50% no grupo ativo e 21.42% no grupo controle passaram para categoria mais alta ao final do mês 2. No mês 4, 75 % do grupo ativo migrou para categoria mais baixa e no grupo controle 14.29% migraram para mais alta. No mês 6 permaneceu a migração de 75% do grupo ativo para categoria mais baixa e permaneceu a migração de 14.29% para categoria mais alta, sendo que outros 14.29% migraram para categoria mais baixa no grupo controle (p 0.05) mostrando que não houve aqui um desfecho favorável. Portanto, a redução dos níveis de alérgenos nos lares com intervenção agressiva global foi bastante evidente e durante todo o período de estudo, enquanto que nos lares sem a intervenção agressiva global a dosagem dos alérgenos não apresentou maior alteração e não houve evidência de redução (figura 4).
O coeficiente de correlação das medidas do pico de fluxo expiratório e das medidas dos níveis de alérgenos do ambiente nas casas com altas concentrações alergênicas mostra forte correlação negativa (r= – 0.949 ; p
 
Discussão 
É conhecido que 80 a 90 % dos pacientes com asma têm rinite alérgica e 40 a 50% dos pacientes com rinite alérgica têm asma10.A razão pela qual alguns indivíduos com rinite alérgica desenvolvem hiperreatividade brônquica, enquanto outros não, não é conhecida.Uma possibilidade é que a alta exposição à alérgenos seja importante fator indutor. Sob condições naturais,a hiperreatividade brônquica pode ser induzida por exposição sazonal a alérgenos em indivíduos portadores apenas de rinite alérgica21.Este fenômeno pode também ser reproduzido em laboratório. Um estudo envolvendo 16 indivíduos com rinite alérgica e nenhuma hiperratividade brônquica (
  Inúmeros trabalhos consistentemente mostram que o tratamento da rinite alérgica beneficia asma. Embora antihistamínicos sejam geralmente considerados como sem ação sobre a asma, o estudo ETAC (Early Treatment of the Atopic Child) em que cetirizina foi administrada por 18 meses a crianças atópicas de 1-2 anos de idade com testes positivos a ácaros e polens, resultou em aproximadamente 50% de redução de incidência de asma25.Diversos estudos demonstram a eficácia do uso de corticosteróide tópico nasal em pacientes com rinite alérgica intermitente e asma leve. Welsh e cols. em 1987 já demonstraram que pacientes com rinite alérgica em uso de beclometasona ou flunisolida tópicas melhoraram significativamente os sintomas brônquicos26. Corren e cols.em seguida examinaram o efeito de beclometasona intranasal sobre a hiperreatividade brônquica em pacientes com rinite alérgica e asma leve e demonstraram, com o teste de provocação por metacolina, grande melhora da reatividade brônquica27. Outros estudos examinaram o efeito do corticosteróide intranasal em pacientes com rinite alérgica persistente e asma leve. Por exemplo, um deles examinou o uso de budesonida intranasal e demonstrou redução das medidas objetivas de obstrução nasal, sintomas de asma e broncoespasmo induzido por exercício28. Em seguida Watson e cols. examinaram o efeito de beclometasona intranasal sobre os sintomas asmáticos e resposta brônquica a testes de provocação com metacolina, tendo concluído por redução dos sintomas asmáticos e reatividade induzida pela metacolina29. Além disto, estes autores completaram elegantemente o trabalho demonstrando que, beclometasona marcada por radioisótopo e depositada na via intranasal, era encontrado somente com 2% de deposição na área pulmonar, ficando claro que o efeito do corticosteróide era por via nasal e não por via pulmonar. Recentemente autores brasileiros e canadenses demonstraram que triancinolona nasal é capaz de reduzir os marcadores inflamatórios das vias aéreas inferiores quando usados para rinite alérgica em pacientes também portadores de asma30.
    De acordo com os Consensos Internacionais e o Brasileiro sobre o tratamento da asma este tratamento deve incluir o controle do ambiente, o uso de agentes beta 2 agonistas conforme a necessidade e o corticosteróide inalado em doses baixas16-17.O último Consenso Brasileiro sobre Rinites aconselha que no tratamento da rinite alérgica se deve incluir o controle do ambiente, uso de antihistamínicos tópicos ou orais e corticosteróide nasal15.
   Neste trabalho em que avaliamos o resultado da rotina clássica preconizada para pacientes com rinite alérgica persistente e asma leve persistente onde incluímos o controle ambiental, o uso de agente beta 2 agonista de acordo com a necessidade e o corticosteróide nasal para uso prolongado, verificamos o resultado positivo desta conduta não só sobre rinite alérgica (Reis AP et als: Rev.Bras.Alerg.Imunopatol 2006; 29, 201-209) mas também sobre a asma leve concomitante que estes pacientes apresentavam.  Quando medimos o pico de fluxo expiratório (Peak Flow) houve desfecho favorável no grupo tratado mas também no grupo controle que usou apenas o corticosteróide nasal por um período de seis meses, mas esta melhora ocorreu somente no 6° mês de estudo, demonstrando melhor resultado principalmente para o uso mais prolongado (Fig 3). Devido a pouca biodisponibilidade da triancinolona nasal, é muito pouco provável que nossos resultados sejam devido à ação sistêmica deste composto e sim pela ação antiinflamatória do corticóide sobre as células inflamatórias e citocinas locais que têm repercussão em toda a extensão da árvore respiratória que se constituem em um trato único.
    O controle do ambiente é parte muito importante nesta estratégia. A alergia aos ácaros ambientais é a causa mais comum de doença alérgica respiratória na criança  e o controle do ambiente parece ser a maneira mais lógica de tratar criança com alergia respiratória relacionada aos ácaros.A literatura que suporta esta afirmação é extensa31-38. Custovic et cols descreveram a correlação entre a exposição aos ácaros, reatividade a metacolina e diminuição do VEF1 em adultos39.Chang- Yeung et cols notaram que crianças asmáticas sensíveis aos ácaros mostravam uma relação positiva entre os sintomas asmáticos e nível de alérgeno do ambiente e relação negativa entre Peak Flow e nível de ácaros40.Investigadores australianos demonstraram que mudanças na concentração alergênica nas camas correlacionaram positivamente com hiperreatividade brônquica à histamina e sintomas asmáticos33.Investigadores europeus relataram que o uso de capas impermeáveis aos ácaros nas camas, combinado com o uso de filtros, melhora a hiperreatividade brônquica, embora não tenham verificado melhora no VEF1, Peak Flow ou sintomas asmáticos34.Murray e Ferguson , estudando crianças asmáticas com controle do ambiente em que incluíram capas impermeáveis no travesseiro e colchão, ausência de carpetes e brinquedos de pelúcia ou outros que retêm poeira, verificaram menos sintomas de asma, menor uso de medicação e melhora no Peak Flow36.Walshaw e Evans, avaliando adultos asmáticos com ambiente controlado usando capas impermeáveis, lavagem semanal dos tecidos das camas, limpeza ou remoção de carpetes, remoção de poltronas estofadas, verificaram melhora no Peak Flow, relação VEF1/CVF, hiperreatividade brônquica à histamina, mas não ao VEF1 isolado, quando compararam ao grupo controle37. Neste estudo a exposição antigênica aos ácaros do  ambiente foi medida pela concentração antigênica em mcg/g de poeira. Este método de avaliação tem sido recomendado pelos três últimos workshops internacionais e tem sido usado em diversos ensaios e com sucesso37,41,42. O uso de métodos baseados na técnica de ELISA (ensaio imuno enzimático com anticorpo monoclonal) tem fornecido um índice bastante válido de exposição antigênica e métodos semiquantitativos, como o que usamos neste ensaio, podem ser usados por clínicas, laboratórios, médicos e até por pacientes para controlar e monitorar o nível de concentração antigênica na casa do alérgico43. Os alérgenos são medidos em amostras de poeira coletadas por aspirador de pó em área de 1 m2 e por 2 minutos em três a quatro locais da casa, principalmente quarto, sala de TV, tapetes, carpetes, e mostram boa correlação da quantidade de alérgenos e o índice de exposição.O teste é rápido e dá condições ao pesquisador, médico ou paciente de avaliar o índice em alto, médio ou baixo por simples linhas coloridas que se correlacionam ao grupo dois dos antígenos de ácaros determinados pelo teste de ELISA.
  A grande limitação deste estudo está no fato de não termos um grupo controle sem o uso do corticosteróide nasal, devido a problemas éticos.
  A conclusão final do estudo é de que o controle do ambiente e o uso de corticosteróide tópico nasal em crianças por um período de seis meses são capazes de reduzir a concentração antigênica nos lares dos pacientes e melhorar a sua asma, demonstrado pela redução dos sintomas e do pico de fluxo expiratório (Peak Flow).

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