Publicado em: 22/03/2013 Por
Dra. Barbara Gonçalves da Silva e Dra. Fernanda Aimée
Conceito de reação adversa a alimentos
O termo reação adversa a alimentos é utilizado para definir qualquer reação ocorrida após a ingestão de alimentos ou aditivos alimentares. Pode englobar desde a intolerância até a hipersensibilidade, ou alergia alimentar (Sampson, 2003).
A intolerância refere-se a qualquer resposta fisiológica a um alimento ou aditivo e é classificada em quatro tipos principais: toxicidade ou envenenamento, reação farmacológica, como a cefaleia que ocorre pela cafeína ou tiramina, resposta metabólica, como a diarreia em indivíduos com deficiência de lactase, e reações idiossincrásicas (Sampson, 2003).
Já a hipersensibilidade, ou alergia alimentar, diz respeito a reações a alimentos ou aditivos desencadeadas por mecanismos imunológicos, mediados ou não pela IgE. Apresenta um grande espectro de manifestações clínicas, desde quadros leves, com sintomas locais, como a síndrome da alergia oral e urticária de contato, até quadros sistêmicos e fatais, como a anafilaxia.
Dois padrões principais de sensibilização podem estar envolvdos na alergia alimentar: o que ocorre por meio da ingestão do alérgeno, via gastrointestinal, e o que se manifesta secundariamente a alérgenos inalantes, tendo por base um mecanismo imunológico de reatividade cruzada IgE-mediada, em que proteínas inaladas levam à produção de anticorpos da classe IgE com capacidade de reagir a proteínas de alimentos.
Diante da reatividade cruzada
O crescimento da prevalência de sensibilização aos aeroalérgenos tem-se refletido não só no aumento das manifestações alérgicas respiratórias, mas também no dos fenômenos de reatividade cruzada com alérgenos alimentares. São vários os determinantes da relevância clínica da reatividade cruzada: a característica da proteína alergênica, como homologia, solubilidade e estabilidade; fatores associados à exposição ao alérgeno; as proteínas alergênicas amplamente distribuídas na natureza (pan-alérgenos); e a concentração e a afinidade da IgE produzida, entre outros. Da mesma forma, a presença dos determinantes de carboidratos de reação cruzada (cross-reactive carbohydrate determinants, ou CCD) também é importante. Encontrados na maioria das plantas, os CCDs podem levar à produção de IgE, sendo rara a associação com sintomas clínicos (Schmid-Grendelmeier, 2010).
O fenômeno da reatividade cruzada, na alergia alimentar, tem implicações relevantes em termos de diagnóstico e tratamento. Assim, diante de um paciente com esse quadro, é fundamental a identificação do alérgeno suspeito e sua exclusão, bem como a prevenção de reações alérgicas causadas pela ingestão de alimentos com reatividade cruzada, de modo a evitar restrições dietéticas desnecessárias.
A maioria dos extratos usados na prática clínica para avaliação diagnóstica, tanto in vivo (testes cutâneos) como in vitro (IgE específica), corresponde a extratos proteicos complexos, obtidos a partir de fontes alergênicas naturais, o que leva à variabilidade em sua composição e alergenicidade. Dessa maneira, obtém-se informação relativa à fonte alergênica potencial, mas não se identifica a molécula que desencadeia os sintomas, o que só é possível com alérgenos naturais purificados ou alérgenos recombinantes.
Tecnologia molecular no diagnóstico de alergia
Visando a um correto diagnóstico do alérgeno alimentar envolvido e a uma redução das chances de obter resultados falso-positivos e falso-negativos nos exames laboratoriais, especialmente em indivíduos polissensibilizados, tem havido uma preocupação crescente em relação à melhoria dos métodos diagnósticos disponíveis, sobretudo os feitos in vitro.
Nesse sentido, a tecnologia molecular vem permitindo a clonagem e a produção de alérgenos das principais fontes alergênicas, em formas recombinantes, os quais mantêm as propriedades imunológicas das proteínas naturais, com consequente aumento da sensibilidade diagnóstica. Surge, então, o conceito de component-resolved diagnosis (CRD), ou seja, da identificação da molécula ou componente específicos do alérgeno envolvido na sensibilização, o que se tornou recentemente possível graças à tecnologia por biochip e ao desenvolvimento de testes de alergia miniaturizados (microarray).
Os testes de IgE baseados em microarray possibilitam acelerar o diagnóstico, devido à análise simultânea de vários parâmetros; determinar o componente molecular envolvido na sensibilização, e não somente a fonte alergênica; otimizar o diagnóstico de situações particulares, como a alergia alimentar e a alergia ao látex; utilizar uma amostra mínima de soro do doente (20-50 μL/teste); e ainda adotar medidas profiláticas, quando aplicáveis, em situações de reatividade cruzada; entre outros benefícios.
Imunoensaio com componentes moleculares alergênicos
O ImmunoCAP®Isac (Immuno Solid Phase Allergen Chip) é um teste in vitro que visa a identificar e determinar semiquantitativamente a presença de anticorpos específicos da classe IgE (sIgE) no soro ou no plasma humano para 112 componentes alergênicos, de 51 fontes, simultaneamente (Carvalho et al, 2010).
O exame consiste em um imunoensaio, em que os componentes alergênicos ficam imobilizados em um substrato sólido, na forma de microarray, e são incubados com 20 μL de soro do paciente para a detecção de anticorpos sIgE. A ligação entre esses anticorpos e os componentes alergênicos é identificada pela adição de um anticorpo anti-IgE, com marcação fluorescente. Com a utilização de um leitor de biochips, consegue-se uma imagem que, por meio da intensidade de fluorescência (valores FI), permite obter o resultado dos testes com a ajuda de um software adequado, o Microarray Image Analysis Software, de acordo com a metodologia do fabricante. Os resultados são expressos em Isac Standardized Units (ISU), com cut-off de positividade de 0,3 ISU (Carvalho et al, 2010). A partir dessa análise, é possível conhecer o painel de sensibilização de IgE do paciente para inúmeros componentes alergênicos e também observar a presença ou não de sensibilização para alérgenos de reatividade cruzada (Santos et al, 2010).
A validade desse teste múltiplo como screening depende de sua indicação adequada. Numa população sintomática, um resultado positivo aumenta a probabilidade de o paciente ser alérgico. Entretanto, quando o multiplex é utilizado em indivíduos não selecionados, pode haver resultados falso-negativos e falso-positivos. Desse modo, não é recomendável que o exame seja utilizado como “triagem”, sem uma indicação clínica específica (Bernstein et al, 2008).
Quando bem indicado, o ImmunoCAP®Isac tem muitas vantagens, tais como simplicidade, necessidade de mínimo volume de sangue e utilização de grande parte dos alérgenos relevantes, com capacidade de identificar CRDs, alérgenos de reação cruzada e alérgenos raros, potencialmente anafiláticos, além de eliminação dos CCDs (Ferrer et al, 2009; Schmid-Grendelmeier, 2010). Contudo, sua principal desvantagem ainda é o custo.
Na prática, o novo exame é recomendado especialmente em casos de suspeita de múltiplas sensibilizações e/ou possibilidade de sintomas desencadeados por reações cruzadas entre alérgenos, dermatite atópica, anafilaxia idiopática e ausência de resposta à exclusão de um alimento sabidamente implicado na alergia do paciente. No entanto, não substitui a história clínica, o teste cutâneo, a dosagem de IgE específica para um componente/painel ou a provocação oral, mas complementa a investigação do paciente (Schmid-Grendelmeier, 2010). Por outro lado, não há indicação na realização desse teste em indivíduos monossensibilizados.
Referências
Sampson, HA – Food Allergy. J Allergy Clin Immunol, 111: s540-547, 2003.
Schmid-Grendelmeier P – Recombinant allergens. Routine diagnostics or still only science? Der Hautartzt 2010, 61 (11): 946-953.
Carvalho S, Gaspar A, Prates S, Pires G, Silva I, Matos V, Loureiro V, Leiria-Pinto P – ImmunoCAP ISAC®: Tecnologia microarray no estudo da alergia alimentar em contexto de reactividade cruzada. Rev Port Imunoalergologia 2010; 18 (4): 331-352.
Santos KS; Kokron CM; Palma MS – Diagnóstico in vitro. Em: Diagnóstico. Castro FFM et al – Alergia Alimentar. Cap. 6, 53 – 74, Ed. Manole, 2010.
Bernstein Il et al – Allergy Diagnostic Testing: an updated practice parameter. Ann Allergy Asthma Immunol 2008, 100: S1 – 148.
Ferrer M; Sanz ML; Sastre J; et al – Molecular diagnosis in Allergology: application of the microarray tecnique. J Investig Allergol Clin Immunol 2009, 19 (1): 19-24
A alergia como nunca a viu
Thermo Fisher Scientific Inc. (NYSE: TMO)
Inclua os componentes dos alergénios no trabalho de diagnóstico e leve o diagnóstico de alergias a um novo nível. A alergologia molecular mede a sensibilização aos componentes individuais dos alergénios, o que oferece um quadro detalhado do perfil de sIgE do doente. Desta forma é possível avaliar o risco da alergia e explicar sintomas devidos à reactividade cruzada, ajudando-o a melhorar a gestão do doente.
A nova abordagem da Alergologia Molecular leva o diagnóstico mais longe através da quantificação dos anticorpos IgE específicos em moléculas de um alergénio único e puro. A precisão melhorada assim obtida reforça a utilidade clínica dos testes IgE.
Componentes de alergénios – a base de um diagnóstico melhorado
É possível produzir componentes alergénicos individuais a partir de uma fonte alergénica. Deste modo, a sensibilização a estes componentes é medida individualmente em testes separados, ajudando a identificar, com um nível molecular exacto, o componente ao qual o doente é sensível.
Esta informação fornece a base para um diagnóstico preciso da alergia. Na Alergologia Molecular, os testes com base em extractos são utilizados em conjunto com análises específicas de componentes. O extracto fornece a resposta global se o doente for sensível à fonte do alergénio em particular, enquanto os componentes oferecem informações adicionais sobre o risco, especificidade e reactividade cruzada.
O que nos podem dizer os componentes de alergénios?
Os componentes de alergénios são proteínas e, com base na semelhança estrutural, são agrupadas em diferentes famílias de proteínas. Dependendo das propriedades destas proteínas, a sensibilização aos componentes leva a diferentes consequências para o doente.

Componentes específicos: pistas únicas para revelar as fontes da alergia
Cada fonte de alergénio contém caracteristicamente componentes alergénios específicos e de reactividade cruzada. Os componentes específicos de alergénios são mais ou menos exclusivos da fonte, encontrados apenas num número limitado de espécies relacionadas. Cada fonte de alergénios pode conter um ou alguns componentes específicos de alergénios. A sensibilização a qualquer um deles indica uma sensibilização genuína, o que significa que a fonte de alergénios correspondente é a causa principal dos sintomas clínicos.
Identificar componentes de reactividade cruzada – melhorar o diagnóstico
Os componentes de alergénios de reactividade cruzada estão mais distribuídos e podem ser partilhados por uma vasta gama de fontes de alergénios. Devido à grande semelhança estrutural, podem provocar reactividade cruzada com anticorpos IgE.
A reactividade cruzada pode ser exemplificada com a alergia alimentar relacionada com o pólen de bétula, uma síndrome que afecta muitos doentes alérgicos ao pólen de bétula. O motivo molecular subjacente a esta reactividade cruzada é o facto de a maior parte dos doentes alérgicos ao pólen de bétula terem anticorpos IgE específicos do componente Bet v 1. Bet v 1 tem uma semelhança estrutural a proteínas relacionadas de vários alimentos, por exemplo a soja e o amendoim. Assim, os anticorpos IgE do doente para o Bet v 1 de bétula têm uma reacção cruzada com estas proteínas relacionadas da soja ou do amendoim.
Quantidade e estabilidade da proteína
Os componentes alergénicos dos alimentos apresentam diferentes estabilidades ao calor e à digestão, e o respectivo conteúdo na fonte de alergénios varia. Tanto a estabilidade como a quantidade são reflectidas pela família de proteínas a que pertence o componente. Assim, conhecendo o perfil de sensibilização do doente e a que família pertencem os componentes identificados, é possível avaliar o risco associado às sensibilizações.
